A oficina fica numa rua de paralelepípedos, atrás da matriz de São João do Cedro, no sul de Minas Gerais. O som do tear manual — madeira batendo madeira, o zunido dos fusos — atravessa a porta entreaberta desde as seis da manhã. João Batista Teixeira, 67 anos, trabalha ali há 48. Aprendeu com o pai, que aprendeu com o avô. Hoje, forma a terceira geração de tecelões da família.
A cidade tem pouco mais de 12 mil habitantes. Não há indústria têxtil por perto, nem universidade com curso de design. Mesmo assim, a Oficina Teixeira produz mantas, cachecóis e panos de mesa vendidos em feiras de Belo Horizonte, São Paulo e, mais recentemente, em lojas de comércio justo na Europa.
Ofício que não se improvisa
Caipira: Quando alguém pergunta se dá para aprender tear em um fim de semana, o que você responde?
João Batista: Que pode aprender a passar a lançadeira, sim. Mas ofício não é curso de fim de semana. Meu pai dizia que tear ensina paciência antes de ensinar técnica. Hoje eu digo a mesma coisa pros meninos que entram aqui.
O artesão estima que um aprendiz leva de dois a três anos para dominar os pontos básicos e produzir peças com qualidade comercial. Atualmente, quatro jovens — entre 17 e 24 anos — dividem o espaço com ele. Dois são parentes; dois chegaram por indicação de professores da escola estadual.
"Tecido feito à mão tem defeito que é assinatura. Máquina não perdoa, mas também não conta história", diz João Batista, ajustando a tensão do fio de algodão cru.
Mercado e sobrevivência
A oficina não vive só de romantismo. João Batista mantém cadernos com custos de produção, tempo por peça e margem de venda. Uma manta de lã tingida com casca de ipê, que leva cerca de 40 horas de trabalho, é vendida por R$ 380 na feira de artesanato de BH. "Não fico rico, mas pago as contas e pago quem trabalha comigo", resume.
Durante a pandemia, as feiras fecharam e a renda caiu 70%. Foi quando a filha de João Batista, Fernanda, criou uma página de vendas online e traduziu as descrições dos produtos para o inglês. "Foi a primeira vez que vendemos direto para fora do Brasil sem intermediário", conta ela, que hoje administra a parte comercial da oficina.
Pesquisadores do Sebrae Minas apontam que artesãos que combinam venda presencial com canais digitais têm taxa de sobrevivência 40% maior nos cinco anos após a abertura do negócio. O dado não surpreende João Batista: "Feira é encontro, internet é escala. Precisa dos dois."
Transmissão entre gerações
O caso da família Teixeira é exceção em um cenário de envelhecimento dos artesãos brasileiros. Segundo levantamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a média de idade dos mestres artesãos registrados em ofícios tradicionais supera 58 anos, e menos de 15% têm aprendizes com menos de 30 anos.
Na oficina, o mais jovem é Lucas, 17, neto de João Batista. Ele divide o tempo entre o ensino médio e o tear. "Meus colegas acham estranho no começo. Depois querem ver como funciona", diz. Já vendeu três cachecóis para colegas da escola.
João Batista não força ninguém a ficar. "Ofício que é obrigado vira peso. Ofício que é escolhido vira caminho." Dois aprendizes anteriores migraram para outras áreas — um virou marceneiro, outro designer gráfico — mas voltam à oficina de vez em quando. "Levam o que aprenderam: olho para detalhe, respeito ao material."
O que o futuro reserva
Caipira: Daqui a dez anos, essa oficina ainda existe?
João Batista: Se eu não cuidar, não. Se a cidade valorizar, sim. Artesanato não sobrevive só de artista bonzinho. Precisa de comprador, de política pública, de escola que leve o menino pra conhecer o ofício. Aqui a prefeitura nos convida pra feira duas vezes por ano. Ajuda, mas não basta.
Ele pretende registrar a oficina como patrimônio cultural imaterial do município — um processo iniciado em 2025 com apoio de pesquisadores da UFOP. O título não traz dinheiro imediato, mas abre portas para editais e documentação. "Pelo menos fica registrado que isso aqui existiu e existe", diz.
Quando o sol começa a baixar, João Batista desliga o tear e varre o chão de serragem. Amanhã, às seis, o som volta a atravessar a rua de paralelepípedos. Como há quase meio século.